11. Prostituição e cidades: Por uma narrativa histórica sob a perspectiva de gênero.

Ministrantes: Lucymara da Silva Carvalho, mestranda pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

 

No Brasil a dinâmica entre o espaço urbano e a prostituição vem sendo estudada desde a década de 1980, onde vemos uma série de trabalhos que tomando a prática prostitucional como seus objetos, trouxeram para esta proposta de minicurso uma contribuição importante, na medida em que nos apresentaram as diferentes formas de como a prática foi encarada nas cidades brasileiras durante o século XIX e XX. Na área das Ciências Sociais, temos estudos que influenciados pela escola de Chicago se proporão a refletir sobre a prostituição a partir da discussão dos conceitos do estigma, da identidade e do desvio social, sendo que muitos destes se orientaram pela definição de tais conceitos elaborados pelo o antropólogo Erving Goffman (1963). Na historiografia, por sua vez, os trabalhos mais específicos sobre a cidade e a prostituição surgem no final da década de 1980 ancorados no campo de estudos da História das Mulheres. Segundo Margareth Rago (1995) neste período, a historiografia brasileira foi influenciada pelos escritos de Michael Foucault, que provocaram uma reviravolta na forma como a história das mulheres e da sexualidade era escrita. A historiadora observa que, contrariando a perspectiva adotada pela história social, predominante na maioria dos trabalhos até a década de 1980 e que, em sua maioria, buscavam situar as experiências das mulheres na história, os estudos influenciados por Michael Foucault procuraram analisar não o sujeito em si, mas as construções discursivas a respeito destes, ressaltando que o discurso não apenas descrevia a realidade, e sim, participava na sua construção enquanto verdade. Outro momento importante na historiografia brasileira e que impactou profundamente nas reflexões elaboradas acerca da dinâmica dos espaços em que a prostituição era exercida foi o crescimento da utilização da categoria analítica de gênero com a publicação do artigo da historiadora Joan Wallach Scott, Gênero: uma categoria útil de análise histórica, em 1990. Scott (1990) problematiza as relações entre homens e mulheres ressaltando que, ser mulher ou ser homem, não está ligado a características biológicas, mas é fruto de uma construção social sobre os corpos lidos como masculinos ou femininos. Partindo dessa perspectiva, que busca historicizar a construção da masculinidade e da feminilidade, entendendo que há uma relação de poder entre os sexos, surgem variados trabalhos nos quais as imagens da mulher prostituta, do cliente e da cafetina, são desconstruídas e estudadas de forma relacional. A proposta desse minicurso portanto, se alinha a uma perspectiva que busca problematizar o estudo da prostituição se utilizando do gênero como categoria de analise histórica. Objetivamos realizar um debate sobre a forma como a prática prostitucional em contexto urbano vem sendo discutida nos trabalhos historiográficos, com a tentativa de chamar atenção para os silenciamento acerca das possibilidades identitárias dos sujeitos e dos sentidos e usos que as Ruas e Becos que acolhiam a prostituição nas cidades brasileiras poderiam apresentar, para além da comum denominação atribuída aos mesmos: dos moradores como “os indesejáveis” e dos espaços, enquanto “reduto de promiscuidade”. Segundo Cristiana Schettini (2006) uma abordagem sobre a prática prostitucional que combine gênero como categoria analítica aos métodos da história social diminui o risco de que as dimensões moralistas encontradas nas fontes primárias sejam reproduzidas nas interpretações historiográficas. Ela observa que, a partir desta perspectiva a vida de homens e mulheres associados à prostituição ao invés de serem logo relacionados à ideia de anomalia e de excepcionalidade serão estudados levando em consideração as várias interlocuções estabelecidas entre os diferentes grupos sociais. Esperamos assim, que esse minicurso possa promover uma reflexão e inquietação naqueles que se interessam na temática apresentada.

Duração de 3h.

04/09 – 13h-15h30min.

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