Gêneros, experiências e identidades: repensando feminilidades e masculinidades

 

Coordenadora:

Magali Gouveia Engel (UFBA)

 

Atualmente uma das questões fundamentais que orientam as discussões no âmbito da história das relações de gênero refere-se às possibilidades de análises que contemplem o caráter plural, dinâmico e profundamente complexo das identidades femininas e masculinas. Algumas vertentes interpretativas chegam mesmo a questionar a validade e a legitimidade das categorias masculino e feminino, posto que ambas permaneceriam, de algum modo, referenciadas às diferenciações reducionistas entre sexo/biológico e gênero/cultura. Neste sentido, propomos uma discussão em torno da referida problemática a partir de pesquisas sobre experiências e identidades femininas e masculinas em diferentes contextos históricos.

Sessão I 

“Eu já não disse que mulher minha não bebe em balcão”: Identidades masculinas, violência e honra em Feira de Santana, 1960-1970.

Alessandro Cerqueira Bastos - Mestrando em História Social - Universidade Federal da Bahia (UFBA).

 

Esta comunicação pretende investigar, baseando-se em alguns processos-crimes de homicídio e lesão corporal, a experiência de homens das camadas populares, assim como os significados que estes construíram em torno de suas identidades masculinas, na cidade de Feira de Santana- BA, no período de 1960 a 1970. Buscamos, da mesma forma, compreender como o recurso a violência e as noções de honra, intimamente imbricados, foram acionados nos conflitos cotidianos e que ficaram registrados nestes processos-crimes. Para tanto, recorremos a uma análise que combine as categorias de gênero, classe e raça, pois consideramos que as masculinidades só podem ser mais bem compreendidas se consideramos as tramas de poder que fundamentam a sociedade.

 

A violência de gênero como forma de demonstrar masculinidade: do século XX ao ano de 2019.

Eduarda Hortência Santos Sampaio - Graduanda em História - Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).

 

Historicamente, nossa sociedade perpassa por questões que desmoralizam a mulher e tornam o homem mais soberano, por essa razão, o mesmo é estereotipado como o ser detentor da força, da racionalidade e do poder. Já a mulher, fica direcionada há características como a delicadeza, sensibilidade e o estereótipo da dona de casa ou “anjo do lar”. Seguindo essas questões, a História mostra que o gênero e a sexualidade são usados como contribuição na desigualdade entre homens e mulheres, assim como, a divisão de classes, e esses fatores contribuem nos casos de violência contra mulher ainda em pleno século XXI. A masculinidade por sua vez é uma construção social, assim como a feminilidade, que acabam sendo associados também ao sexo, ou seja, ao biológico homem e mulher, devido isso, a visão conservadora atribui que masculinidade está referente às atitudes vindas dos homens, enquanto que a feminilidade refere-se as atitudes das mulheres. Sendo assim, muitos homens ainda usufruem de atos de violência para demonstrar sua masculinidade, com isso, os casos de agressão às mulheres continuam a crescer no Brasil, e por nossa sociedade ser machista, os movimentos feministas e as leis contra violência de gênero chegam para abalar a estrutura conservadora e mostrar que todos devem ser respeitados e que atos agressivos devem ser julgados e punidos, para que assim, a sociedade adapte-se e compreenda que violência não mostra soberania entre os seres.

Sexualidade, gênero e violência contra a mulher: relações do fazer psicologia, e a educação em uma escola pública.

Evilânia da Rocha Santos - Graduanda em Psicologia - Estácio (FAL).

 

O presente trabalho apresenta o relato de experiência e discussões surgidas a partir de um projeto de extensão realizado com jovens de uma escola pública estadual de ensino fundamental no estado de Alagoas, Brasil. A educação é entendida como um dos pilares de qualquer sociedade, todos seus valores, normais e questões culturais são transmitidos aos indivíduos através da educação, seja ela formal (na escola, por exemplo), ou informal (a educação familiar). Sendo assim, a educação passa ser uma importante ferramenta de transformação social, uma vez que através dela podem-se repensar diversos valores e ensinar a sociedade relações sociais mais igualitárias. Tendo em vista os grandes índices de violência contra as mulheres, no nosso estado, onde se observa a necessidade de iniciativas voltadas a prevenção e combate à violência contra a mulher e trazer para a população discussão sobre questão de gênero, sexualidade e violência contra a mulher. Com o intuito de trazer para o ambiente escolar e criar multiplicadores, o projeto é destinado às alun@s das escolas públicas, onde os números agravantes de casos de práticas das diversas tipificações de violência contra a mulher, vem aumentando progressivamente, resultado de uma cultura machista e sexista impostos culturalmente em nosso cotidiano.  O principal objetivo do projeto foi desenvolver atividades relacionadas ao gênero, sexualidade e violência contra mulher com jovens a partir da psicologia social e do feminismo. Entende-se que essas discussões têm se apresentado com temáticas importantes para a formação de indivíduos com ênfase no combate ao preconceito e as desigualdades que levam às diversas situações de violência, sendo a educação uma importante ferramenta de transformação social, uma vez que através dela podem-se repensar diversos valores e ensinar a sociedade relações sociais mais igualitárias, abrindo o diálogo na sala de aula para que a debate com os alunos sobre esses temas. Nesse sentido foram realizadas 6 oficinas quinzenais a partir das seguintes temáticas: vivência de juventude feminina e masculina, estereótipos e papéis sociais relacionados a homens e mulheres, orientação sexual e violência contra a mulher. Ao todo participaram das oficinas 46 jovens, entre 13 e 18 anos, estudantes do 9º ano do ensino fundamental. Durante a realização das oficinas os estudantes realizaram debates sobre a sexualidade, gênero e violência contra mulher, de forma que todos pudessem compreender e fazer reflexões a respeito das questões abordadas, também foram confeccionaram cartazes, para que pudessem mostrar o que eles entendem a respeito dos temas que foram debatidos e assistiram curta-metragens. Ao final do projeto de extensão, considera-se que os estudantes (do ensino fundamental e da graduação) que participaram dessas discussões demonstraram uma reflexão sobre os temas abordados e entende-se que ações como a essa podem ser significativas a longo prazo contribuindo para a diminuição das desigualdades de gênero.

Orientação sexual na escola: Concepções de adolescentes de Delmiro Gouveia

Gigliane Pereira Fontes - Graduanda em História- UFAL/ Campus Sertão

Emília Carolina Gomes Oliveira - graduanda em História- UFAL/ Campus Sertão

Luciana Juvêncio Silva - graduanda em História- UFAL/ Campus Sertão

 

O objetivo do trabalho é identificar o conhecimento dos estudantes de Delmiro Gouveia em relação a educação sexual escolar. Sendo a mesma um ambiente social no qual o estudante passa grande parte de sua vida, local onde se inicia os primeiros contatos interpessoais, desta forma, a escola tem como dever contribuir para com uma educação sexual de qualidade e igualitária, não se limitando apenas a informar mais também a discutir, refletir e questionar. Discussões sobre DSTs e gravidez na adolescência ainda são o grande foco nas escolas, onde a educação sexual se limita a tais temáticas, quando as mesmas são abordadas. A orientação sexual nas escolas não deve ser limitada a questões biológicas, deve ser mostrada em outras dimensões, dos sentimentos, das emoções e desta forma tal tema deve ser tratado de forma natural, discutido e questionado, não transformando em sinônimo de constrangimento ou tabu. É de suma importância que tal tema seja abordado nas escolas, porém não se pode esquecer da educação sexual familiar, pois a participação da família vem antes da escola. Esta que é mediadora da educação dos filhos, desempenha um grande papel na construção do pensamento crítico, social e cultural dos jovens, nos levando a refletir como ela atua na disseminação desses saberes, que são tão decisivos na vida de um jovem. Será que de fato ainda há preconceitos, receios ou controversas sobre tal posição? Em pleno século XXI, será que as famílias conseguem conversar com filhos sobre intimidade, sentimentos, menstruação, relação sexual, gravidez ou aborto? Ou será que ainda prevalece esse tabu? Sabemos que, a educação começa primeiro em casa e é no seio da família, que se tem os primeiros contatos com as descobertas acerca das fases da vida. A interação entre a comunidade e a escola será de fato importante para a introdução de tais temas no currículo escolar? A escola disponibiliza uma formação continuada para juntamente com os profissionais docentes abordar, tais questões que viabilizem a discussão acerca de tais temas encarados como tabus pela sociedade? São muitas as questões que podemos retratar aqui, mas, o que cabe ressaltar é justamente quais as medidas que as escolas estão tomando ao lidar com essas temáticas. Trabalhar estas questões no espaço escolar como já exposto é de fato bastante relevante, mas, de uma forma igualitária, como por exemplo, a inserção dos alunos homo afetivos LGBTQI+ nesses debates que, ao longo da história foram menosprezados e tratados como inferiores por uma sociedade totalmente preconceituosa e conservadora. Lidar com estas temáticas no ambiente escolar é trazer informação de qualidade também para as minorias (mulheres e comunidade LGBTQI+), que de certa forma sofrem mais com os tabus atrelados à sexualidade. Trata-se de um estudo exploratório-descritivo, sendo os dados obtidos através de questionários respondidos por alunos de escolas municipais, estaduais e professores. O trabalho tem como foco adolescentes, pois na nossa concepção são os mais atingidos pela falta de esclarecimentos, problematização e os preconceitos existentes. Sendo o momento do ápice das transformações de seus corpos, como por exemplo, voz, crescimento dos pelos, menstruação, crescimento dos seios e maturação dos órgãos sexuais, acnes entre outros.

 

Rumo a um currículo estranho: descolonizar narrativas para CuiRizar o currículo.

Késia dos Anjos Rocha - Doutoranda em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS.

Prof. Dr. Alfrancio Ferreira Dias (Orientador) - Docente da Universidade Federal de Sergipe – UFS.

 

A partir do diálogo entre as teorias decoloniais e queer procuro investigar produções literárias infantojuvenis de escritoras contemporâneas que se apresentem como contradiscursos diante de concepções normativas de gênero, sexualidades, raça e classe. Compreendo essas produções como práticas discursivas artivistas dissidentes, ou seja, são produções artísticas que, a partir de um engajamento político, questionam as formas hegemônicas de organizações e relações sociais. A intenção é pensar como essas práticas nos auxiliam a trilhar um caminho rumo à descolonização de nossos currículos.

SURGE UM SOM: a formação da Banda Fanfarra Ethelda Amorim e as relações de gênero nesse campo.

Silas Pita Pereira: Graduando - Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).

 

Este artigo tem como intuito descrever a formação da Banda Fanfarra Ethelda Amorim de Vasconcelos, além de discutir as relações de gênero presente na fanfarra. Metodologicamente este trabalho esta pautado em coletas de informações resultantes de idas aos ensaios da banda fanfarra, além de entrevista com NUNES (2019) e RIBEIRO (2019) e utilizo como referencial teórico LEÓN (2014), ANDREOLI (2010) além do uso de fotografias. A ideia desse trabalho é mapeia as posições dentro da fanfarra e como essas posições são interpretadas e como se relacionam.

Sessão II

 

Maceió Pós Abolição: um breve estudo sobre as trabalhadoras da capital alagoana na virada do século.

Sandra Catarina de Sena – Mestra em História - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Mulheres como a “Nega Luiza” das crônicas de Pedro de Carvalho Vilela, indicam importantes caminhos para investigação sobre os locais de trabalho em Alagoas no período pós abolição da escravidão, assim como as experiências das trabalhadoras, que por diversos “motivos” nunca tiveram alguma notoriedade nas histórias sobre trabalho na Primeira República, entretanto foram parte central nas pesquisas dos folcloristas alagoanos ao longo do século XX. A pesquisadora Silvia Federici, entende o trabalho doméstico não remunerado das mulheres como um dos pilares de sustentação para reprodução do sistema capitalista. No contexto alagoano do período, esse lugar significou a realidade de mulheres negras e “libertas” do trabalho escravo, que mesmo tendo conquistado suas alforrias, na prática, continuavam impostas aos trabalhos “invisibilizados” de uma sociedade que acabara de iniciar sua história no trabalho livre, mas negou totalmente a garantia da “liberdade”. Tia Balbina e outras são mencionadas na obra de Félix Lima Júnior, por exemplo. São as “negas da costa”, vendedoras de “vatapá, caruru, arroz de côco, siris, camarões ensopados, sururus e massunins, cuscus, tapiocas e angus” que circulam nas ruas do bairro de Jaraguá. Nesse sentido, através da análise das fontes (jornais, literatura e documentos oficiais do estado), tentaremos compreender as formas encontradas pelas mulheres trabalhadoras negras que após abolição buscaram por sobrevivência na capital alagoana.

Ventura intérmina ou Constante Inferno? Perspectivas de mulheres baianas sobre casamento.

Leila Maria de Jesus Pereira - Mestranda - Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

 

Esta comunicação visa discutir as perspectivas e reflexões, publicadas na coluna Confissões Intimas da Revista Ilustrada A Renascença, pelas mulheres baianas na década de 1910 com relação ao tema casamento e questões que circundam o mesmo. A partir da análise desses depoimentos podemos perceber múltiplos aspectos de suas opiniões acerca de como manter um casamento feliz, nos dando conta dos padrões, normas e comportamentos creditados como positivos para sustentar uma relação " bem-aventurada", nas palavras das mesmas.  Temas como: casamento, amor, o papel das mulheres na constituição da família e o que elas esperavam ou almejavam de seus maridos, são expressados através das respostas dessas mulheres à revista, possibilitando perceber as múltiplas construções do gênero feminino, seus ideais e contradições.

“No brega eu sou uma puta, mas na minha rua eu sou uma senhora”: uma analise sobre as múltiplas identidades das mulheres prostitutas do Beco da Energia da cidade de Feira de Santana-BA.

Lucymara da Silva Carvalho - Mestranda - Universidade Estadual de Feira de Santana (UFFS).

 

Este trabalho surge a partir do cruzamento entre uma entrevista realizada com uma senhora prostituta em 2015 no tradicional espaço de prostituição mais conhecido como “Beco da Energia” na cidade de Feira de Santana, e as leituras sobre as discussões produzidas pela antropologia e pela historiografia acerca da prática prostitucional. Nosso objetivo é a partir da história de vida dessa senhora, problematizar e historicizar a imagem vinculada às mulheres que trabalham como prostitutas, utilizando para tal análise, o conceito de gênero formulado pela historiadora Joan Scott.

MULHER NA RODA NÃO É PARA ENFEITAR: Uma breve análise sobre a presença feminina na história da capoeira.

Juliana Fernanda da Silva - Graduanda do curso de Licenciatura em História na Universidade Estadual de Alagoas.

 

A história da capoeira sempre esteve marcada pela forte presença de homens, por muito tempo neste universo predominou-se dessa forma, a capoeira era considerada prática exclusiva de domínio masculino e para as mulheres eram destinadas a ocupação de papeis sociais de feminilidade, como ser esposa, mãe e dona do lar. São poucos os documentos que registram mulheres como capoeiras, em comparações aos registros que representam os homens na mesma época, e dos registros existentes, frequentemente encontram-se associados com críticas por ser mulher e estar quebrando as normas de comportamentos impostos na época e por estar associada a práticas de marginais e vadios. Mas, isso não quer dizer que elas estiveram ausentes ou que ocupavam apenas papeis meramente ilustrativos em complemento da função masculina, embora através das músicas e das ilustrações imagéticas sobre a capoeira em diferentes contextos históricos sempre tenha existido a presença de mulheres nas proximidades e assistindo as apresentações dos homens, pouco se fala sobre os meios e níveis encontrados de participações destas que desafiavam os padrões que lhes eram doutrinados e exigidos como o correto  na forma de se comportar e viver, e os desafios enfrentados por elas até deixar de ser novidade e passar a ser integrante ativa e protagonista na capoeira. Nesta perspectiva, o presente trabalho é uma breve análise histórica sobre a presença, contribuições e formas de resistências femininas no desenvolvimento da capoeira, as representações nas músicas produzidas e cantadas pela voz dos homens que retratam as relações de gêneros entre ambos e por fim, a consolidação feminina nas rodas de capoeira. Tendo como objetivo, salientar a necessidade de contribuir para o aumento do espaço sobre a  visibilidade feminina, diminuir o vácuo quando se refere as trajetórias e reconhecimento dessas mulheres, discutir sobre as mudanças ocorridas nos últimos tempos que propiciaram essa participação mais significativa e ativa, além de enunciar alguns dos desafios ainda enfrentados por ser mulher em luta por espaço e afirmação.

A Invisibilidade constitucional da mulher frente ao Sistema Internacional de Direitos Humanos.

Roseane Santos Mesquita - Mestranda em Educação - Universidade Federal de Sergipe (UFS).

 

O artigo discute o sistema de direitos humanos das mulheres. A partir de um levantamento teórico, buscou-se identificar, os registros do movimento feminista. Com base no tratado internacional, compreende-se que a história, subsidia o desenvolvimento das políticas públicas para as mulheres. É possível que, apesar dos registros históricos, analisados sob a ótica da categoria gênero, o historiador, conforme período cronológico contém os fatos somente sobre o prisma individual e não com a veracidade necessária.

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