Os paradoxos dos séculos XX e XXI - movimentos sociais e grupos intelectuais: a interseccionalidade na pesquisa histórica

Coordenadores:

Dra. Ana Paula Palamartchuk (UFAL)

Ms. Valter Zaqueu Santos da Silva (UFBA)

 

O Grupo de Pesquisa História Social e Política da UFAL concentra-se nos estudos de processos históricos das sociedades, analisando suas mudanças, rupturas e ou permanências; bem como as suas formas de identidade e interação sociais; as relações de conflito; os seus arranjos de poder e as formas de dominação; as suas estruturas políticas e a dinâmica das ideologias de dominação; as relações de classe e os movimentos sociais; os mundos do trabalho; os campos do mundo letrado que forma uma elite intelectual; suas culturas; suas interseccionalidades. Neste conjunto, o caminho metodológico de investigação está aberto ao historiador, optando desde a defesa da História do tempo presente, como da sociologia histórica, da seriação de dados históricos ou outro método de investigação, ao mesmo tempo em que mobiliza a análise crítica das relações sociais e sua dinâmica histórica. Neste caminho, acompanhamos os avanços da historiografia contemporânea sobre os estudos relativos à dinâmica social e histórica, que atualmente tem exigido a inserção de outros objetos de pesquisa como o ambiental, gênero, raça, ensino de história e outros que sociabilizem e disponibilizem o saber histórico para a comunidade. Comemorando 10 anos de existência do GP, com muitos trabalhos e pesquisas na área da História Social e muitas das quais ligadas à História do Brasil Republicano, propomos a organização deste Simpósio Temático que dê conta do debate mais recente da historiografia nos diálogos interdisciplinar, multidisciplinar e interseccional que se fazem cada vez mais presentes no enfrentamento da natureza e status dos conceitos e noções destes diversos campos do conhecimento, os quais integram o trabalho concreto de pesquisa, reflexão metodológica e suas implicações teóricas e políticas. O século XX foi palco de mudanças profundas e aceleradas da humanidade. Grandes experimentos e invenções: da mecânica quântica às viagens espaciais; da criação da televisão à invenção de computadores, que seria a porta de entrada para o “progresso” do século seguinte. O vertiginoso desenvolvimento tecnológico parecia um horizonte promissor sem fim para o setor industrial. Produzir em modelo fordista significava maior produção em espaços curtos de tempo. Por outro lado, a relação desigual entre capital e trabalho aprofundava os níveis de exploração e de descontentamentos. O uso indiscriminado de recursos naturais atestava a pouca ou a falta de preocupação com a sustentabilidade. As crises econômicas e os altos índices de desemprego assustavam. Além disso, a partir dos anos 1970, o modelo neoliberal aguçou ainda mais a fragilidade dos trabalhadores, cada vez mais inseguros. No plano político, o século XX foi um momento de ampliação de conquistas democráticas e direitos sociais, mas também de experiências nefastas de desrespeito aos direitos humanos, civis e políticos. Foi um século de catástrofes, em que se mataram mais seres humanos do que em qualquer outra época: duas guerras mundiais, inúmeros conflitos civis e entre nações, massacres étnicos, atentados contra a vida e a liberdade por parte de Estados opressores. E o século XXI tem início radicalizando esses elementos e colocando em xeque a própria ideia do liberalismo econômico e político, assim como as experiências de crise da democracia. Assim, nossa proposta é que os trabalhos que se vinculem ao ST apresentem temáticas relacionadas à História, reflexões sobre os paradoxos do século XX, sejam nas experiências internacionais ou nacionais. Tem o intuito de promover o diálogo teórico, metodológico e historiográfico entre pesquisas que abordam temáticas políticas, sociais e culturais do século XX, tais como processos de poder em suas mais variadas manifestações contemporâneas, desde as estruturas políticas estatais, as relações de poder que se estabelecem entre os vários grupos sociais, assim como as ideias de democracia, revolução e liberdade, até as expressões culturais dessas estruturas e relações; análises sobre produções culturais, linguagens artísticas e pensamentos de intelectuais; relações internacionais, entre alianças e conflitos; ideais e práticas políticas e culturais. Enfim, pretende abranger temáticas acerca de experiências históricas que marcaram o século XX e que, de certa forma, deixaram legados fundamentais para se compreender o tempo presente.

Sessão I

 

Comitê de defesa proletária: o anarquismo e a luta contra a carestia de vida em Maceió em 1917.

Igor Ribeiro dos Santos – Mestrando em História – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

O objetivo desta proposta de comunicação é analisar a atuação do Comitê de Defesa Proletária contra a Carestia de vida em Maceió em 1917. Assim como, caracterizar as atividades desse comitê; entender como enxergava a carestia de vida; e os meios elencados para o combate da mesma. O ano de 1917 segue marcado, como anos anteriores, por sérias crises, ocasionando, de um lado, o aumento do custo de vida e a escassez dos produtos de primeira necessidade para os trabalhadores e as trabalhadoras em muitos Estados e cidades do Brasil. Por outro lado, é marcado também por intensas mobilizações operárias no país, com majoritária participação anarquista, em greves parciais e gerais, o que levaram a conquistas substanciais para as trabalhadoras e os trabalhadores. Embora exista, desde a formação da Confederação Operária Brasileira (COB), um clima de lutas intensas alavancadas pelo sindicalismo revolucionário das organizações Brasil a fora, os eventos que se efetuam a partir de meados 1917 se espalham de São Paulo, seu epicentro, para outras partes do país, reverberando, inclusive, em Alagoas. Neste contexto, é formado, entre julho e agosto de 1917, em Maceió, o Comitê de Defesa Proletária que lutará contra a carestia de vida nesta cidade. O Comitê terá na figura do anarquista Antonio Bernardo Canellas e o seu jornal, A Semana Social, editado em Maceió, e veiculado em inúmeras cidades do interior alagoano, dentre outros Estados, uma figura de suma importância. As experiências de comitês homônimos nestes eventos do ano de 17 do século XX são registradas em outros lugares, como São Paulo, por exemplo. Esses comitês contaram com a participação não só de anarquistas, mas estes foram proeminentes. Nesta análise sobre a atuação do Comitê de Defesa Proletária alagoano procuramos responder à seguinte questão: qual a relação da luta do Comitê de Defesa Proletária e o anarquismo? Utilizaremos como fonte para este trabalho alguns números do jornal A Semana Social.

 

 “Guerra e Paz” nas páginas d’O Semeador (Alagoas, Primeira República).

João Victor da Cunha Tavares – Graduando, História Bacharelado – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Analisar as notícias e notas referentes à Primeira Guerra Mundial, o período de armistício e os acordos para o seu fim, além da repercussão desses eventos em Alagoas. Também pretende analisar o período entre guerras e a ascensão do fascismo na Europa, na década de 20. O Semeador possuiu um serviço de telegramas que alimentava as informações sobre os acontecimentos europeus e mundiais. Este estudo auxiliaria a entender o papel católico nos esforços pela Paz. Ao mesmo tempo em que noticiava, mantinha a articulação política em torno das ações e interesses do Vaticano durante e após o conflito.

 

Cinema e Realismo Soviético: a sedução da arte no Regime Stalinista.

Krystila Andressa Costa da Silva – Mestranda em História - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Nos anos 1930 na União Soviética, um novo conceito de arte é oficializado: o “Realismo Socialista” pretendia apresentar a realidade e o desenvolvimento revolucionário, a partir da educação dos trabalhadores nos moldes socialistas, extinguindo laços com qualquer influência burguesa ou externa. Inicialmente um movimento visto com entusiasmo pelos intelectuais soviéticos, se tornou temeroso e frustrado por se ambientar apenas aos moldes Stalinistas, utilizaremos a linguagem cinematográfica para compreender o horror e beleza que esse conceito artístico produziu na história.

 

Votar e ser votada: os limites da participação feminina nas eleições de 1945.

Ricardo José Sizilio – Doutorando – Universidade Federal da Bahia (UFBA).

 

Com o fim do Estado Novo, e após mais de uma década sem que os brasileiros votassem, em 1945 ocorreram as eleições que definiram o novo Presidente da República e os novos senadores e deputados, responsáveis pela construção da nova Carta Constitucional. Durante o processo eleitoral muito se falou da importância da participação feminina nas eleições, porém, na prática, pouquíssimos eram os incentivos para que as mulheres se envolvessem diretamente no pleito, seja como eleitoras e, principalmente, como candidatas. Dessa forma, esta apresentação abordará a participação feminina nas eleições de 1945, tendo em perspectiva o fato de a legislação eleitoral priorizar como eleitores os homens, e que fossem letrados.

 

Mentalité e Psique: Diálogos entre História e Psicologia.

Geovanne Otavio Ursulino - Mestrando em História – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

A interdisciplinaridade é uma das principais propostas da chamada Escola dos Annales e se tornou fundamental ao historiador. Foi partindo dela que Lucien Febvre, um dos fundadores da Escola, introduziu a Psicologia nos domínios da História por meio da História das Mentalidades. Este trabalho pretende discutir o surgimento, o desenvolvimento e as principais questões envolvendo o estudo das mentalidades, passando por Febvre, Robert Mandrou, Georges Duby, Jacques Le Goff, entre outros. Discutirá também a aproximação entre mentalidades e psique, especialmente por meio da Psicologia Social e das propostas de Peter Gay, historiador que propõe a introdução de Sigmund Freud e da Psicanálise na pesquisa histórica, trabalhando algumas das principais categorias freudianas. Desta forma, o trabalho busca apresentar a Psico-história como um meio para a produção de um conhecimento histórico interessado em investigar o “espírito do tempo” de sociedades e grupos humanos no passado, ou até mesmo no tempo presente.

Sessão II

 

A Escola de Viçosa: a trajetória da primeira geração entre 1930 a 1950.

Adriana da Conceição Nascimento – Graduada.

 

O presente trabalho busca discutir a primeira fase da chamada “Escola de Viçosa”, compreendendo seus membros como pioneiros nos estudos do folclore, dentro do movimento folclórico no período de 1930 a 1950. Para tanto, aborda-se a trajetória de seus principais intelectuais como memória coletiva, para a reconstrução da identidade cultural da cidade de Viçosa. Esse grupo de intelectuais foi de importante influência na formação intelectual, e cultural para a população viçosense, sendo ele motivado pela riqueza folclórica da cidade, e a diversidade culturalmente popular, os folguedos. Nesse contexto, discute-se a relação desses intelectuais com o folclore, a cultura popular local e as famílias que tecnicamente detêm o conhecimento intelectual, o legado dos Brandões e Vilelas, dentro da ilustre Viçosa. Portanto, procura-se entender o que seria de fato a Escola de Viçosa, formada por grupos abastados, construídos a partir de uma visão popular, relacionando a trajetória desses com o parentesco social e econômico da cidade de Viçosa, analisando a importante repercussão que esse grupo causou na associação brasileira de Folclore, tendo como objetivo o compromisso em registrar, documentar, propagar e levar a sério os estudos do folclore brasileiro.

 

Cultura, questões raciais e folclore: democracia racial na Guerra Fria (Brasil, anos 1950).

Ana Paula Palamartchuk – Doutora – História – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Tendo por referência determinada produção do pensamento social brasileiro que se verte em ensaios interpretativos a respeito do auto entendimento nacional com forte investimento na questão racial, este capítulo pauta o velho debate da situação social brasileira, em específico, o mito da democracia racial brasileira, para mostrar que, em que pese o fato de a crítica já tenha sido feita, este discurso ainda orienta na atualidade setores da sociedade brasileira. Constituído por uma vasta literatura, o campo de estudos das relações raciais no Brasil sedia abordagens e interpretações cujo acento varia de acordo com o período histórico, a tradição e a filiação intelectual dos estudiosos. Seja na extensão da produção, seja na multiplicidade de temas ou nas teorias projetadas, gerações inteiras de estudiosos, das mais diferentes formações acadêmicas, dedicaram-se a pensar a “questão racial no Brasil”. Para que possamos compreender as influências e desdobramentos das ideias dentro do campo, é importante, aqui, retomarmos o a década de 1950 e os debates que ali se seguem, m especial os fomentados por Florestan Fernandes e Gilberto Freyre, período que forneceu aspectos importantes para a constituição de discursos sobre a questão racial brasileira, muitas das vezes pautados no debate sobre o folclore no Brasil. A ideia aqui é entender como o folclore no Brasil integra a agenda internacional, através do programa da UNESCO a partir de 1947, no imediato pós-guerra, e como esse debate também se integra nos estudos sobre as relações raciais no Brasil, também articulado pela UNESCO e com financiamentos de outras agências internacionais, na década seguinte como agenda da Guerra Fria.

 

O movimento LGBTQIAP+ entre perdas e ganhos: as desconstruções e rachaduras no muro da repressão da sociedade brasileira nos séculos XX e XIX.

Wheber Mendes dos Santos - Graduando do Curso de Licenciatura em História da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).

 

O Movimento LGBT teve seus primeiros rumos traçados na Europa, no final do século XX, e chega ao Brasil nos anos 70, durante a ditadura militar, como meio de promover uma ruptura nos padrões sociais, e a resistência dessa população marginalizada. Para a discussão do tema proposto ser realizada com excelência, recorre-se a uma gama de autores de diversas áreas do conhecimento, como a História, a Sociologia e a Psicanálise. Aspira-se com esse trabalho, apresentar o percurso de resistência do movimento LGBT e sua vivência, marcada por repressões, dominação, poder e julgamentos.

 

Os percursos históricos do desenvolvimento do conceito de interseccionalidade.

Gleice Pereira da Silva – Mestranda – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

O presente artigo tem como objetivo discutir o desenvolvimento do conceito de interseccionalidade e a sua relevância para o desenvolvimento da historiografia contemporânea. Campo em disputa até os dias de hoje, a interseccionalidade teve suas raízes lançadas no agitado contexto social do final dos anos 1960. Período marcado por intensas manifestações populares de grupos, até então excluídos e subalternizados. Nessa onda contestatória, o movimento feminista volta à cena, ao lado de outros movimentos sociais como o negro, o de minorias étnicas e o movimento gay (COSTA, 2009). Em 1981, Angela Y. Davis publicou seu livro “Mulheres, raça e classe”, uma reflexão sobre a situação histórica da população negra norte-americana e sobre o racismo e machismo da sociedade da maior potência econômica mundial. Também no ano de 1981, a intelectual negra Bell Hooks publicou o livro “Não sou eu uma mulher: mulher negra e o feminismo”, neste livro a autora examina o impacto do racismo e do sexismo na vida das mulheres negras americanas a partir de uma perspectiva feminista. Essas obras clássicas do feminismo negro, são consideradas como marco inicial para a legitimação acadêmica dos estudos de gênero, raça e classe, que se iniciam ainda nos anos de 1970 sob o impacto do manifesto do Combahee River Collective, um coletivo de mulheres negras e lésbicas americanas, o qual defendiam a luta articulada contra o racismo, o heterossexismo e a desigualdade de classe (HENNING,2015). Em 1989, a jurista americana Kimbérle Crenshaw cria o termo “interseccionalidade” para reunir os estudos de múltiplas diferenciações sociais como gênero, raça, classe, sexualidade, geração, etnia e outros (CRENSHAW,2002). Esses estudos buscam demonstrar como o local ocupado por certos indivíduos ou grupos pode ser determinante para a manutenção de opressões e subordinações. Na historiografia brasileira, a interseccionalidade tem sido incorporada com resistência.

 

Zine Punk: informação, conhecimento e politização na cidade de Delmiro Gouveia – Sertão de Alagoas (1985-1990).

José Rinaldo Queiroz de Lima - Metrando em História pelo Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

O zine punk ou punk zine é a abreviação de fanzine, sendo este a “contração dos termos ingleses fanatic e magazine” (MAGALHÃES, 1993, p.9), que significa “revista do fã”, mas o Movimento Punk é formado por Punks, sendo as bandas punks uma ferramenta de manifestação do Movimento, com isso, não existe fã dentro do Movimento, o que faz com que os Punks que produzem os (fan)zines utilizem apenas o termo zine, que se configurou em uma das mais importantes ferramentas de comunicação, propaganda e protesto do Movimento Punk (O’ HORA, 2005). É a partir do zine que o Movimento Punk divulga suas ações, promove suas críticas e protestos, divulga as bandas punks, os eventos culturais e faz o debate sobre o que é ser Punk e quais seus ideais, além de propagar o anarquismo enquanto ideologia (OLIVEIRA, 2006). Dessa forma esse material é uma das ferramentas de comunicação alternativa dos Punks produzido de forma artesanal com os recursos que estão ao seu alcance. O objetivo do artigo é levantar o debate acerca da história dos zines em meio ao Movimento Punk em Delmiro Gouveia, observando a contribuição dessa ferramenta de comunicação não convencional, como, meio de informação, formação indenitária e conhecimento político para uma determinada parcela de jovens pobres que aderiram ao Punk em Delmiro Gouveia. Debater também acerca do acesso a esse material pelos Punks em Delmiro, observando como se deu os primeiros contatos com os zines, de onde vinham e com que frequência chegavam até os Punks em Delmiro. A metodologia utilizada para o desenvolvimento do artigo parte da análise e cruzamento das fontes orais, da análise bibliográfica sobre os zines, e análise e cruzamento de fontes documentais, como, por exemplo, o conteúdo de alguns zines, que serão confrontados com as fontes orais.

© 2017 por CPDHis - Centro de Pesquisa e Documentação Histórica - ICHCA - UFAL. Maceió - Alagoas - Brasil.