Sociedades em contato: práticas, cotidiano e vivências no mundo atlântico

Coordenador:

Dr. Gian Carlo de Melo Silva (UFAL)

 

Partindo das dinâmicas impostas pelo cotidiano das diversas sociedades ligadas pelo Atlântico, o presente Simpósio Temático visa congregar trabalhos que abordem as práticas sociais e culturais desenvolvidas por homens e mulheres entre o século XVI e início do XX. O objetivo é de que possamos dialogar sobre como o cotidiano foi moldado ou teve de ser adaptado para garantir a sobrevivência das diversas sociedades que se formaram no litoral ou nos vastos sertões desde o período colonial. Temas que abordem família, escravidão, Igreja, economia etc, serão acolhidos para contribuir no debate geral sobre o Atlântico para além de um oceano, ele é entendido como um canal que possibilitou conexões e transmissão de saberes ao longo dos séculos, extrapolando suas limitações geográficas, formando sociedades e colocando pessoas até então desconhecidas em contato, gerando um mundo novo, um mundo conectado.

Sessão I

 

Viajantes Ingleses no Brasil durante os séculos XVI a XIX: Trajetória, experiências e relatos.

Vitor Feitosa Santos - Graduando de História Licenciatura – Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), Campus III.

 

Essa pesquisa tem por objetivo analisar grandes obras escritas por ingleses que estiveram no Brasil durante o período Brasil colônia e Brasil império (Século XVI a XIX) através de crônicas, relatos de viajem, correspondência, memória, diários e álbuns de desenhos, obras de grande relevância para a construção da historiografia brasileira, deixando testemunhos de sua passagem ou estada no Brasil em uma série de textos, de estilos e gêneros variados, merece destaque os livros de Anthony Knivet e de Richard Hawkins, grandes cronistas da vida brasileira dos séculos XVI a XIX, descrevendo em suas obras aspectos da terra, da gente, dos usos e costumes do Brasil. Objetivo analisar, nessas narrativas, como os viajantes construíram a si mesmos como narradores, assim como a textualização das províncias pelas quais passaram. O olhar do viajante revelava as construções ideológicas e imperiais, estabelecendo relações de igualdade e desigualdade, semelhanças e diferenças, e autoavaliação.

“Evitando a queixa que terão os mesmos índios”: resistência indígena no recrutamento e deslocamento durante à “guerra dos bárbaros”.

Wesley de Oliveira Silva, Mestrando em História – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

 

O presente trabalho busca analisar resistências dos grupos indígenas aldeados durante o recrutamento e deslocamento das tropas e aldeamentos no decorrer da “Guerra dos Bárbaros” (1650-1732). A historiografia indigenista tem crescido gradativamente nos últimos anos, e o reflexo disso é o aparecimento de muitos trabalhos que analisam não apenas os aldeamentos, mas também tropas indígenas que marchavam a serviço da administração portuguesa colonial. Isto posto, revisões da historiografia tradicional estão sendo empreendidas, especialmente no que se refere às representações dos indígenas nesses trabalhos, na grande maioria das vezes vistos como submissos, sem papéis significativos e mesmo frágeis. No entanto, obras recentes acentuam que os indígenas agiam dentro dos aldeamentos, desenvolvendo práticas de resistência culturais, inclusive, proporcionando o nascimento de uma nova cultura na medida em que os religiosos iam traduzindo seu material, possibilitando um melhor entendimento para os indígenas. E não era somente nos aldeamentos que estratégias de ressignificação aconteciam. Durante à “Guerra dos Bárbaros”, muitas vezes aldeamentos inteiros eram deslocados de uma região para outra; o mesmo acontecia com tropas indígenas jogadas onde quer que houvesse levantes de grupos indígenas insurretos. Deste modo, várias revoltas ocorriam, algo bem frequente não apenas durante o período que se propõe analisar, mas também durante todo o período colonial. E nesse contexto, muitos grupos passavam de aliados a inimigos, atacando missionários, fazendeiros, matando o gado, atacando núcleos de povoamento portugueses, associando-se a outros grupos para fortalecer seu poder de combate, enfim, guerreando contra os colonizadores. No entanto, embora tão frequentes, estão longe de ser as únicas formas de resistência desenvolvidas pelos indígenas. Muitos grupos ameríndios desenvolveram também maneiras mais sutis e menos nítidas. É a partir dessa argumentação que o trabalho se projeta, tendo como objetivo evidenciar essas estratégias de resistências que muitos indígenas criaram ao decorrer da “Guerra dos Bárbaros”, afim de atender seus interesses próprios.

 

“Sem soldo algum, só graças, privilégios e... isenções”: a política remuneratória da Coroa portuguesa aos súditos da comarca de Alagoas (c. 1746-1816).

Everton Rosendo dos Santos - Mestre em História – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

 

A presente comunicação visa analisar a distribuição de mercês-patentes aos homens das tropas locais na comarca de Alagoas, entre 1746 e 1816, enfatizando categorias imersas nessas organizações pouco conhecidas na historiografia. Um dos significados das patentes concedidas aos membros das tropas era que estabeleciam vínculos estratégicos com a monarquia. Uma vez que esse tipo de mercê não trazia riqueza material imediata, o que estava em jogo eram os benefícios concedidos, em troca dos serviços prestados à Coroa. Além disso, poderiam ser fatores positivos no pleito a outros cargos da administração ultramarina (fazendários, camarários).

 

“Ilustrou a escuridade de seu sangue com o esplendor das suas virtudes”: representações sobre a gente de cor na Capitania de Pernambuco no século XVIII.

Filipe Matheus Marinho de Melo - Mestrando – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

 

Este trabalho tem como objetivo analisar os discursos das elites letradas sobre a população de cor na Capitania de Pernambuco, tendo como recorte a primeira metade dos Setecentos. Consideramos o papel dominante dos valores ibéricos na construção de representações baseadas nas noções de “honra”, “defeito” e “impureza”, assim como o papel desenvolvido pelas dinâmicas de mestiçagens biológicas e culturais que possibilitaram a coexistência de grupos e sujeitos de diversas qualidades e condições. Nossa análise se concentra na obra dos cronistas vistas a partir da perspectiva da História Cultural.

 

Artes da governança: justiça régia e a política ambiental na Comarca das Alagoas entre (1790 a 1800).

Felipe dos Santos Silva - Mestrando em História - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

O presente trabalho tem como proposta central discutir algumas transformações ocorridas com o surgimento do reformismo ilustrado na segunda metade do século XVIII que, de certo modo, afetaram as possessões ultramarinas lusitana, inclusive a Comarca das Alagoas.  Sendo assim, tem-se como fio condutor a busca pelo controle e monopólio dos recursos naturais, especificamente das madeiras. Para situar a Comarca das Alagoas nesse cenário, parte-se dos indícios que sem tem sobre a criação da superintendência das matas; instituição que regulou as matas entre o século XVIII e início do XIX.

 

Sessão II

 

O interesse de Alagoas pela imigração estrangeira na conjuntura da crise dos braços: 1850-1888.

Maria Valéria da Silva Araújo - Mestranda em História – Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Sabe-se que Alagoas, após o fim do tráfico de africanos estabelecido pela lei Eusébio de Queiros em 1850, sofreu com a falta de trabalhadores escravizados e livres em suas lavouras. Com o problema da escassez de braços, o interesse pela imigração foi crescente entre os grandes proprietários da época. A partir da década de 1850, os presidentes que ocuparam a administração provincial de Alagoas fizeram diversas solicitações ao governo imperial para incentivar e auxiliar a vinda de colonos para a região, entretanto, como aconteceu em várias províncias do Nordeste, houve uma grande omissão do governo em relação a esse assunto, fato este que causou descontentamento entre fazendeiros e políticos alagoanos da época.

 

Os “ensinamentos” para as mulheres: Comportamento e regras sociais na Alagoas Oitocentista (1850-1879).

Andresa Porfírio Gomes - Graduanda em História - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Este trabalho teve como objetivo analisar os anúncios e produtos direcionados as mulheres na Província das Alagoas do século XIX contidos nos periódicos emitidos na época, onde presenciou mudanças significativas diante dos acontecimentos mundiais. A pesquisa foi desenvolvida pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), sob orientação do professor Gian Carlo de Mello Silva e ligada ao Núcleo de Estudos Sociedade, Escravidão e Mestiçagens (NESEM). Diante disso, mais de 150 publicações sobre as mulheres foram encontradas, nas quais, diante das regras instaladas pelo sistema patriarcal brasileiro, revelam uma ordem evidente nas amostras dos artigos e produtos ofertados a este público e destacam a extrema importância da manutenção do status social feminino, inclusive existindo a circulação de indivíduos escravizados (as) e as mulheres brancas pobres, tornando-se agentes históricos ativos no cotidiano da Alagoas oitocentista.

 

Professores das casas-escolas na Província de Alagoas – 1835 a 1875.

Andreza Mayara Lins de Oliveira - Mestra em História Social - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

A presente comunicação tem como objetivo analisar os professores primários da Província de Alagoas do século XIX, a partir do entendimento de como as políticas educacionais foram implantadas a partir do Ato Adicional de 1834. Deste modo, as mudanças ocorridas na instrução pública foram debatidas entre os presidentes de Província, Câmaras Municipais, Delegacias de Ensino e até mesmo, do próprio imperador D. Pedro II. Serão analisados os relatórios dos Presidentes de Província e Delegado de Instrução Pública, Solicitações de professores de Primeiras Letras e jornais.

 

"Habituados na prática do crime": quilombos, coutos de malfeitores e os braços para a lavoura (Alagoas, 1870-1880).

Danilo Luiz Marques - Doutor – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

 

Tensões e incertezas pairavam na sociedade brasileira de fins do oitocentos, momento em que uma grande questão era debatida entre os escravocratas: quem iria suprir os braços escravizados da lavoura? Outra preocupação era quanto à segurança e à tranquilidade pública, tão caras à ordem senhorial que estava posta. Havia aqueles que não viam com bons olhos o aumento da população liberta e sua consequente recusa às condições de trabalho impostas por proprietários acostumados com a relação senhor-escravizado. Uma aguçada análise sobre a série de ofícios trocados entre os chefes de polícia e a Presidência da Província de Alagoas e as falas de autoridades dirigidas à Assembleia Legislativa entre as décadas de 1870 e 1880 permite vislumbrar alguns distúrbios e incidentes que ocorreram de norte a sul na região alagoana, causando muitas dores de cabeça às autoridades e aos senhores escravocratas. O iminente risco de perder o controle sobre a população pobre e de cor, que sempre se demonstrou pouco disposta a obedecer, foi pauta corriqueira entre escravocratas e autoridades. Inseguros perante a inquietação dos escravizados, libertos e livres pobres, muitos senhores culparam a campanha abolicionista e a incompetência repressiva pela grave situação. Por sua vez, muitos delegados se queixavam da falta de estrutura para lidar com as crescentes demandas. A massa livre e liberta, marginalizada na sociedade escravista, encontrava nos saques a fazendas seu meio de sobrevivência, e assim resistia à hegemonia dos senhores escravocratas. As falas dos presidentes alagoanos e os ofícios trocados com os chefes de polícia da região dão uma dimensão de quão tumultuosos foram os últimos anos da instituição escravista nessa província. Outro acervo documental importante para a análise dessas questões são as páginas do jornal O Orbe, que publicou uma série de editoriais, reportagens e correspondências criticando a forma como estavam sendo conduzidas as medidas em prol da emancipação dos escravizados. As páginas desse periódico trazem histórias singulares, indicativas da atuação de africanos e seus descendentes nas margens da instituição escravista, buscando, através da imersão nas propriedades senhoriais e dos consequentes furtos aí praticados, das fugas e da formação de quilombos, tecer as malhas da sobrevivência nas árduas batalhas do quotidiano. Deixaram entrever a impossibilidade física de se alongar por mais tempo a escravização, contribuindo de maneira cumulativa para sua implosão.

AS MULHERES NOS PROCESSOS CRIMINAIS: justiça e honra na cidade de Aracaju no início do século XX.

Jôycimara Ferreira Barreto - Mestranda - Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

O referido trabalho tem como objetivo discutir os crimes de honra envolvendo mulheres da sociedade aracajuana no início do século XX. Assim, serão analisados os crimes de defloramento, estupro, infanticídio, lenocínio e violência. Com isso, busca-se entender através da análise de processos crimes disponíveis no Arquivo Judiciário de Sergipe as questões de gênero, o papel do homem e da mulher na sociedade e a ligação desses crimes com honra. Para fundamentação desde trabalho serão utilizados de referências bibliográficas as discussões de Caulfield, Boris Fausto, Mary Del Priore, Margareth Rago e artigos e dissertações que ajudarão entender o contexto da República, o homem e a mulher e os crimes cometidos. O Código Penal de 1890 também contribuirá para entender as penalidades, a atuação da justiça e a decisão final dos processos crimes. Assim, este artigo possibilitará entender a sociedade de Aracaju entre os anos 1900 a 1930 refletindo sobre sua organização, seus preceitos e a importância da honra para a população do período.

 

Memória e História: Aspectos socioculturais na obra “Volta à Infância” de Povina Cavalcanti na cidade de União (1900-1920).

Marcelo Floriano da Silva - Graduado em História (UFAL) e cursando Especialização em Ensino de História (UFAL).

 

O presente trabalho visa abordar aspectos sociais e culturas e suas representações da sociedade na cidade de União, hoje, União dos Palmares, situada no estado de alagoas através da obra memorialística de Povina Cavalcanti, o qual narra sobre suas raízes no burgo natal abordando, principalmente, temas como: sociedade, família, religião, poder, relações sociais, construção do mito do herói Zumbi e da Serra da Barriga entre outros assuntos, e mesmo quando não fala diz nada a respeito, no caso, sobre os negros e seus descendentes na cidade de União, o autor, fala bastante sobre o processo de invisibilidade na cidade de União. Neste sentido, temos como aporte teórico, Le Goff (1994), em História e Memória, visto que o autor nos coloca um grande desafio quando nos faz refletir sobre qual a relação entre o passado e a memória para a escrita da história. O que ele pretende com essa provocação é demonstrar que em relação à memória o que sobrevive do passado chega até nós por meio das escolhas feitas. E para discutir a relação Literatura/História e vice-versa destacamos, inicialmente, Luiz Costa Lima, em que aborda as convergências e divergências entre as áreas, no entanto, não as exclui como possibilidade de comunicação e como elementos capazes de influenciar-se mutuamente. Logo “a cidade é espelho de sua própria representação” (SILVA, 2015). Contudo, na perspectiva de uma história local que incorpora elementos regionalistas, temos a contribuição da historiografia alagoana e nacional para melhor compreensão do contexto histórico, principalmente, da Velha República com obras de Douglas Apratto descrevendo a Metamorfose das Oligarquias do estado, contribuem, também diversos autores, como Dirceu Lindoso com sua obra Interpretação da Província, em que o autor irá fazer uma análise dos fatores sociais que contribuem na formação cultural do estado e consequentemente das cidades que estão inseridos nesta realidade. A nível nacional podemos citar a contribuição de José Murilo de Carvalho que retrata a realidade dos primeiros anos da república na qual está inserido Povina Cavalcanti. Desta maneira, o trabalho constitui-se em uma Pesquisa Bibliográfica, tendo como fonte primária a narrativa de Povina Cavalcanti através das suas memórias, logo é uma pesquisa bibliográfica de caráter qualitativa dialogando com os aportes teóricos a fim de uma maior compreensão desta sociedade e de suas representações.

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